segunda-feira, maio 03, 2010

O brasileiro sabe rir de si mesmo? E leva as piadas numa boa?

O Brasil passa a imagem de um país divertido, com pessoas felizes, que acham graça até dos próprios problemas e características do povo. O jeitinho brasileiro é motivo de piada entre amigos e a impunidade às vezes parece gerar mais audiência em programas humorísticos do que revolta. Mas esta imagem de país bem humorado é questionada por alguns humoristas - aqueles que, com a projeção nacional de que desfrutam, ganham a condição de "vidraça" e são criticados por comentários mal interpretados por parte do público.

Danilo Gentili, humorista do CQC, acredita que o brasileiro não sabe rir de si mesmo. "Nossas piadas sempre falam de português, argentino, americano, mas quando o brasileiro está na piada, ele é o esperto que passou a perna em todos os outros", diz Gentili. Alvo de críticas depois de ter twittado uma comparação entre um macaco e um negro, o humorista afirma que o problema está na deturpação da piada, que acontece quando as pessoas a levam muito a sério. "Se pegam uma piada e, em vez de tratá-la como algo bobo dito por um idiota qualquer, tratam-na como uma declaraçao séria que vai definir o futuro da humanidade, então é sinal de que, ou não existe senso de humor, ou estão precisando alimentar manchetes a qualquer custo".

Num recente post publicado em seu blog - 'Aí é que está a graça', ele critica os políticos e celebridades brasileiras por não saberem lidar com as brincadeiras e não a usarem a seu favor. Como contraponto, cita alguns exemplos de personalidades norte-americanas que, na sua opinião, agem da forma contrária, com bom humor. Entre os casos contados, ele lembra do programa Saturday Night Live que, durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, detonou a republicana e então vice de John McCain, Sarah Palin. Enquanto a atriz e comediante Tina Fey estava caracterizada como Palin, a própria estava no estúdio assistindo ao show, chegou a participar de um quadro e tolerou piadas pesadas feitas pelo ator Alec Baldwin.

No post, Gentili ressalta que o humorista deve ser o anti-heroi, a pessoa que aponta verdades, e não a que pretende agradar o público. Porém, segundo ele, no Brasil a verdade não é admirável e é, muitas vezes, maquiada. "Nossa cultura nos ensina a lucrar com a mentira. Rir com a verdade é algo que não entra na cabeça de ninguém por aqui. A verdade não diverte ninguém. Assusta", diz.

Piadas de gringo
Segundo Gentili, a falta de bom humor do brasileiro se acentua quando a piada ou comentário vem de fora, o que pode se tornar cada vez mais comum já que o Brasil está em crescente evidência internacional. É o caso da declaração do ator e comediante Robbin Williams, em novembro de 2009, de que o Brasil só ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos porque ofereceu em troca strippers e cocaína. O comentário foi feito durante entrevista para David Letterman, no Late Show, e gerou repercussão negativa no Brasil daqueles que não entenderam tratar-se de uma piada.

Gentili, que também destinou espaço no seu blog sobre o assunto, com o post 'Uma piada para Robbin Williams', lembra que, na mesma sequência de piadas, Williams zombou também de Chicago - a outra cidade finalista para sediar os Jogos - do presidente Obama, da apresentadora Oprah e até de si próprio e do apresentador com quem falava. "Todos na plateia riram tanto da piada que fez de Chicago quanto da do Rio. Antes de rirem dos brasileiros, riram de si. O mesmo aconteceu com Os Simpsons, o seriado que ficou famoso no mundo todo por sacanear a mediocridade dos norte-americanos. Quando sacanearam o Brasil virou caso de tribunal", afirma Gentili. Ele se refere ao episódio 15 da 13ª temporada (2002) do sitcom de animação, em que a família Simpsons vem ao Brasil. No desenho, o país está repleto de ratos e macacos nas ruas, pivetes, muheres provocantes e a violência urbana é um problema crônico - tanto é que Homer Simpson acaba sequestrado. A Embratur ameaçou processar os produtores do programa e tentou impedir sua exibição no Brasil.

De acordo com Ana Rosa Ferreira Dias, professora de Língua Portuguesa da USP e da PUC-SP que estuda a análise do discurso nas mensagens, a má recepção de alguns comentários sobre o Brasil vindo de estrangeiros tem a ver com a legitimidade de quem faz humor e isso tem relação direta com a identidade cultural. "Para produzir humor, o destinatário tem que ser conivente com o locutor e, no caso de um estrangeiro, culturalmente isso não acontece. Assim, nós podemos falar de nós mesmos, mas pessoas de outros países não. É como a piada sobre a loira: se ela for feita por uma loira, a recepção é melhor porque tem, em tese, legitimidade. Do contrário, pode acontecer a hostilidade", explica a professora.

Politicamente correto
Piadas sobre sua própria condição física são o forte do publicitário e humorista José Luiz Martins, que há um ano vem se dedicando ao stand up comedy e não poupa piadas sobre a deficiência que tem nos braços e nas pernas. Segundo ele, mesmo que seja um tabu, nenhum tema deve ser proibido na abordagem do humorista e isso contribui para a própria desmitificação de assuntos considerados polêmicos. "Não é interessante que não falem da minha deficiência. Prefiro que guardem esse esforço para colocar mais ônibus com elevador em circulação. Isso me ajuda mais do que me pouparem nas piadas", ressalta o humorista.

Para ele, o chavão do politicamente correto é preguiça do brasileiro de consertar o problema alvo da crítica. "Eu tenho certeza que o Robbin Williams não acha que conquistamos as Olimpíadas por causa das mulheres e da cocaína. Mas é fato que temos mesmo turismo sexual e trafico de drogas no Brasil. Em vez de ficarmos ofendidos, deveríamos tentar sanar este problema". Sobre este ponto, Danilo Gentili reforça: "O brasileiro é uma gorda de 300 kilos que odeia ouvir que é gorda. Ela faz um regime para parar de ouvir isso? Não! Regime e exercício dão muito trabalho", diz em um comentário publicado em seu blog.

O limite do humor, para José Luiz, está na forma como as piadas são feitas, e não nos temas abordados. "Eu até procuro evitar falar de tragédias, mas falo de todas as minorias nos meus shows e acho que todos os humoristas têm que falar também e se explicar depois, caso seja necessário. Só que nunca irei abordar o homossexualismo como doença, o negro como inferior e o deficiente como incapaz. Isso é que não tem graça", diz.

Quem coleciona polêmicas e casos para contar é o músico e humorista Juca Chaves, um ícone do humor que satirizou o regime militar e importantes personalidades políticas da época. Em suas diversas críticas, ora ele se deu bem, ora foi mal interpretado, mas não escapou da censura e chegou a ser exilado em Portugal na década de 1970. Hoje, com a democracia, ele continua defendendo um humor sutil, inteligente e sem preconceito, mas é a favor de que se fale de todos os assuntos. "O humor não pode ter limites, só que as pessoas interpretam de formas diferentes e temos que saber lidar com isso. Fiz sátira de vários presidentes em momentos políticos mais delicados e muitos não ficaram chateados porque a crítica foi bem feita. Hoje faço piada defendendo a mulher e os homens ficam incomodados", contrapõe o humorista. Para ele, no entanto, o importante é ter senso de humor. "Essa a melhor coisa que o brasileiro pode ter. Qual a bronca que o Brasil teve do episódio dos Simpsons? O que eles retrataram está errado?", brinca Juca Chaves.


Fonte: Yahoo

Posted By: Taiane

O brasileiro sabe rir de si mesmo? E leva as piadas numa boa?

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Um comentário:

  1. Pessoal, desculpe atacar por aqui... Mas por favor, visitem este blog http://piscardeolhos.wordpress.com/2010/04/30/alo-deputado-sou-eu-mamae/ Leiam este artigo, "alô deputado, sou eu, mãe". A mãe virou leoa e saiu ligando pra tudo quanto é deputado. Postou o vídeo com partes das conversas e tá dando o que falar na blogosfera das mamães. Várias pessoas acharam a cara de vocês. CONFIRAM!

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